Uma vez li num livro que queriam criar uma sociedade sem amor e compaixão. Onde a felicidade seria artificial e restrita a poucos. O resto da humanidade serviria apenas de combustível para manter esse sistema funcionando. E o pior é que mesmo os escravizados amariam sua escravidão e lutariam para se manterem aprisionados longe da verdade e dentro de seus cativeiros.
Faz pouco tempo que entendi em parte o mundo que vivo. Ganhei com isso a tristeza de desprezar os que estão ainda hipnotizados com as sombras projetadas nas paredes das cavernas. Ganhei muita dor e solidão. Procurei alguém para diminuir minha solidão e só consegui mais solidão para se juntar a minha.
Hoje eu sei que vejo muitas coisas que a maioria não vê e acabei enxergando um mundo de manipuladores e manipulados. Não consigo cortar as cordas usadas na manipulação para livrar os que eu amei e me sinto além de só e desesperada, impotente. Então só me sobrou o pânico de não saber até onde eu era manipulada e o que era real. Senti vontade de cortar o ar feito uma louca para não deixar dúvidas de que eu estava livre. Caí num poço ainda mais fundo onde vivem os desacreditados. E até lá eu estava só. Procurei outros desacreditados que talvez acreditassem em mim, mas então percebi que ainda estava presa porque eu também não acreditava nos desacreditados e eles também não acreditavam em mim.
Acho que viver é como nascer e morrer. Solitário. Agente pode até fingir que estamos acompanhados, mas dentro de nossas peles só cabe um humano. Então pra que fugir dela, da solidão. Enfrentei essa senhora quase todas as noites por seis anos quando vivia só. Hoje vivo com outras pessoas e descobri que continuo do mesmo modo, só. Talvez até mais porque quando não tinha ninguém comigo havia além da solidão a liberdade de deixar as palavras da minha cabeça sairem rolando da minha boca para morrerem nas paredes portas e janelas da minha casa. Hoje os ouvidos me censuram por todos os lados. Seu eu gritar meu desprezo nas ruas me trancarão num manicômio e isso não me interessa. Seu eu proferir meu desprezo no ambiente de trabalho serei demitida e continuarei como um fardo caro aos meus pais, também não quero morar na rua e sofrer frio fome e violência.
Parece estranho, mas eu quis tanto fugir da minha solidão só para descobrir que eu a amo, porque somente ela sabe me falar de mim. E para mim eu sou a pessoa mais interessante que conheço, porque só posso me conhecer além de máscaras e disfarces. Eu não conheço ninguém, não posso esperar nada de ninguém. A única coisa que me atrais aos outros é a surpresa da diferença quando essa surpresa não é muito desagradável.
Todos esses pensamentos se tornaram um problema em minha vida porque minha família queria que eu fosse “normal” como as filhas dos nossos amigos. Todos os dias surgem novas idéias sobre o que eu devo fazer para me sentir bem. Com quem eu devo sair, onde eu devo ir, como me vestir, como se na verdade o problema para eles não fosse o que eu sinto e sim como eles me vêm e como os outros verão nossa família.
Assim como aconteceu na minha primeira “crise depressiva” aos doze anos a solução foi me maquiar. Comecei a trabalhar como vendedora de roupas femininas numa loja badalada de um shopping goiano. Um choque de futilidade para me fazer parar de pensar. Só que eu acho que já sou paciente terminal, não consigo me conectar de forma alguma com as outras vendedoras e apesar de todo meu teatro elas já perceberam que não pertenço a aquele ambiente. Desenvolvi minhas técnicas para vender e manter meu emprego assim, mas não poder falar o que se pensa entre pessoas com quem se convive 7 horas por dia e ter que ouvir o que elas falam sem contestar é uma tortura. Na primeira loja que entrei comecei falando o que pensava e elas se recusaram a conversar comigo e até mesmo permanecer no mesmo ambiente que eu. Eu me senti magoada porque eu não falei nada contra nenhuma pessoa da loja, só o que eu achava do mundo em geral. Eu sinceramente achei que elas gostariam de ouvir mas elas me acharam metida e arrogante. O que mais me intrigou nisso foi que a maioria fazia curso superior e mesmo assim me achavam arrogante porque eu falava de coisas que elas não conheciam com a constituição a política e músicos (de verdade). Descobri que a estilista da loja é muito antenada em arte e que usou influencias de Salvador Dali e Miró para criar estampas surrealistas e que as os azuis e os rosas foram retirados dos quadros dessas duas fazes de Picasso. Quando falei isso elas olharam pra mim como o mesmo desprezo que eu sinto por quem gosta de se manter na ignorância. Então acabei sendo transferida de loja. Onde eu estou hoje é um ambiente ainda mais elitista e as vendedoras são mais selecionadas. Mesmo assim ou por isso, achei melhor ficar mais calada dessa vez.
Os papos passaram de sexo explícito com detalhes para; “Eu quero dar hoje!” e para o esforço de uma vendedora em fazer o seu marido se interessar por elas sexualmente. Algumas eu sinto que não gostam de mim por motivos que eu ainda não sei, algumas são indiferentes e outras são novatas como eu e querem agradar a todos ou não entrar em conflitos ainda.
Nesse espaço vou postar um pouco sobre minhas experiências no mundo do shopping mesmo sendo tão fan de vídeos de teorias de conspiração e sociedades secretas além de ter minha própria atuação política contra a manutenção desse sistema consumidor insustentável que estou ajudando a funcionar hoje como o meu corpo e inteligência durante várias horas por dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário